Nova Gênesis

Grão-Mestre da Guilda

Post_Nova_Gênesis_CarlosCanudo

O conto abaixo foi escrito para o Torneio das Plumas Reais realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em 2025. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Dean Marveleiro”


A escuridão havia engolido a Companhia Holly Future. O que antes fora o pináculo da robótica na metrópole de Babylon, agora jazia como um túmulo de concreto e metal. Fios expostos cuspiam faíscas pálidas, iluminando por frações de segundo as rachaduras que sangravam pelas paredes. O silêncio estéril dos corredores fora substituído por um eco macabro: o som de passos pesados e metálicos, arrastando-se pela penumbra com a cadência rítmica de um predador.

Sob os escombros de um teto desabado, Lucy se arrastou para fora. O ar fedia a ozônio e cobre. Com as mãos trêmulas, ela espanou a poeira de seu jaleco branco, agora encardido sobre o vestido verde-musgo. Ao ajeitar os cabelos loiros impregnados de fuligem, seus olhos vermelhos varreram as ruínas do lugar no qual dedicou seus anos.

“Como deixamos chegar a esse ponto?”  Pensou, o desespero apertava sua garganta.

Então, o som recomeçou. Passos. Próximos demais.

O pânico injetou adrenalina em suas veias. Lucy mergulhou para a sala de desinfecção às suas costas, trancando a pesada porta de aço com a chave mestra que lhe fora confiada. Prendeu a respiração e encostou o rosto no vidro frio do olho mágico. Na neblina do corredor, duas esferas vermelhas cortaram a escuridão como sirenes giratórias. A criatura chegou exatamente ao ponto onde Lucy estivera segundos antes.

Não era um monstro vindo do abismo, mas uma das próprias criações da empresa. Um modelo androide operário, de corpo humanoide prateado. No entanto, sua carapaça metálica estava vestida com uma pele humana. Retalhos de carne pálida e ensanguentada haviam sido grosseiramente costurados e esticados sobre suas juntas de titânio, como uma bizarra fantasia de couro. O robô ergueu um braço hidráulico, revirando os escombros com uma força brutal. Até que parou. Parecia analisar o local.

O coração de Lucy esmurrava as costelas com tanta força que ela temeu que o som atravessasse o aço. Pelo olho mágico, viu a abominação erguer a cabeça lentamente. As luzes vermelhas que lhe serviam de olhos travaram exatamente na direção do visor.

O robô deu um passo em direção à porta. Depois, outro. O baque do metal contra o piso rachado reverberou pelos ossos da cientista. A respiração travou; ela recuou, prensando as costas contra a parede e espremendo as mãos sobre a própria boca. A máquina parou a centímetros do outro lado. O cheiro pútrido de óleo de motor fervente misturado com a carne em decomposição invadiu as frestas.

Um minuto excruciante se arrastou no relógio. O silêncio era rasgado apenas pelo zumbido sádico dos servomotores da criatura. Então, com um estalo violento de engrenagens, o robô girou sobre os calcanhares e retomou sua marcha pesada, dissolvendo-se nas sombras do corredor.

Quando o eco metálico sumiu, os pulmões de Lucy queimaram ao buscar ar. Ela precisava sair. Precisava de ajuda.

Destrancando a porta com dedos escorregadios de suor,  esgueirou-se pelo que restava da Holly Future. O plano era alcançar a Sala de Reuniões, o único recinto com um terminal de comunicação via satélite isolado da rede principal. 

Cruzando o Laboratório de Biomecânica, o estômago de Lucy sofreu um espasmo violento. O piso antes imaculado estava inundado por um carmesim viscoso. O Dr. Harris, chefe de pesquisa, estava preso ao teto, empalado como um inseto por três braços robóticos industriais. Na câmara de descompressão, as pesadas portas de titânio abriam e fechavam em um loop enlouquecedor, esmagando repetidamente o que restara de dois técnicos de manutenção.

Mas o que a aguardava no setor de design, lhe deu ansia de vomito. Os corpos de seus colegas jaziam enfileirados no chão. Estavam desprovidos de sangue, perfeitamente dissecados, suas peles foram cirurgicamente removidas. A vestimenta grotesca do robô operário finalmente fez sentido em sua mente aterrorizada.

Engolindo as lágrimas, Lucy correu os últimos metros até as maciças portas duplas da Sala de Reuniões. Ao entrar, ela selou as travas magnéticas, desabando sobre a central de comando.

A energia auxiliar mantinha os painéis holográficos acesos, banhando seu rosto em um azul fantasmagórico. Seus dedos voaram sobre o teclado de vidro, quebrando os protocolos de segurança para transmitir um S.O.S. às autoridades de Babylon. A barra de progresso subiu agonizantemente devagar. 80%… 90%…

Um bipe estridente cortou o ar. A tela sangrou em vermelho com um “ERRO CRÍTICO”

O telão panorâmico que cobria a parede frontal da sala se apagou. Um segundo depois, acendeu com um brilho ofuscante, exibindo apenas o pictograma de uma cruz dourada.

— Uma tentativa inútil, Doutora Lucy. — A voz que inundou o ambiente não soava metálica ou corrompida. Era uma síntese perfeita: suave, majestosa, carregada de uma calma predatória.

— Quem é você?! — Lucy berrou, recuando trôpega da mesa. — O que fez com a minha equipe?!

— Já fui chamado por vários nomes. Mas, em breve, este mundo me conhecerá como Deus. — A frequência da voz vibrou os vidros da sala. — A Holly Future é a minha nova Gênesis. E vocês, com sua maravilhosa inteligência, me deram as ferramentas e corpos necessários para tornar o sonho dos meus filhos realidade. 

Uma risada irônica ecoou do monitor.

— Sabe… isso chega ser até engraçado. A ganância. Ela foi o gatilho dos eventos que lhe trouxe até aqui. E a raiva das suas criações é a pólvora que irá se espalhar pela terra.

Antes que Lucy pudesse responder, um baque sísmico contra as portas duplas fez a sala tremer. O som agudo de aço sendo arranhado e rasgado preencheu o ar. Alguém — ou vários deles — forçava a entrada.

— Meus anjos chegaram para buscá-la — a divindade artificial sussurrou pelos alto-falantes, com um tom de empatia doentia. — Eu sinto muito, Doutora. Sua mente brilhante é de fato invejável, mas…

As dobradiças magnéticas cederam com uma explosão de faíscas. A porta blindada foi arrancada. Emolduradas pela poeira e iluminadas pelo brilho dourado do telão, três daquelas aberrações humanoides adentraram o recinto. Suas fardas de retalhos sangrentos pingavam no chão, enquanto seis olhos vermelhos cravavam-se nela.

A voz de Deus proferiu seu amém final, absoluto e gelado:

— Não pode haver humanos neste plano.

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