Escrevi por 28 dias e foi isso o que descobri
Grão-Mestre da Guilda
Deixa eu adivinhar. Você já tentou escrever todos os dias, mas, entre a rotina e as distrações, acabou desistindo no meio do caminho. Começou bem nos primeiros dias, fez tudo certo, mas no quinto dia lembrou que tinha que alimentar o gato. No sexto, decidiu levar a samambaia no jiujitsu. E daí por diante foi só ladeira abaixo.
Manter a consistência é uma das maiores dificuldades para qualquer escritor. Recentemente, decidi encarar esse problema de frente e escrever todos os dias durante 28 dias seguidos. O que eu descobri nesse processo? Algumas coisas óbvias e outras nem tanto. Neste texto, vou contar o que aprendi sobre consistência, as dificuldades que surgiram no caminho e o que você pode fazer para manter o ritmo na sua própria escrita.
Por que 28 dias?
Existe uma coisa chamada regra dos 28 dias, que diz que esse é o tempo mínimo para que o ser humano internalize um hábito. Não fui eu que inventei isso. Se a regra funciona de verdade, eu conto no final.
Quando me propus o desafio, defini três regras. A primeira: se eu pulasse um dia sequer, começaria tudo de novo. A segunda: os textos deveriam ter começo, meio e fim, então mensagens de WhatsApp não valiam. A terceira: os textos deveriam ser publicados na internet. Dessa forma, mesmo que eu quisesse roubar, não poderia, já que haveria provas do crime.
Diamante: ter um compromisso é essencial
Se eu tivesse que escolher apenas uma lição de todo esse processo, seria essa. Foi o compromisso que me impediu de pular qualquer dia de escrita e me permitiu cumprir o desafio na primeira tentativa.
Por várias vezes eu não quis escrever. Ou não sabia o que escrever, ou simplesmente não tinha vontade. Os finais de semana foram particularmente complicados. Quando você envelhece e tem filhos, é durante a semana que você descansa. Ter que escrever enquanto separa um filho que está dando um armlock no outro, enquanto a esposa pede para consertar o chuveiro, é um baita desafio. E quando enfrentamos desafios assim, inventamos desculpas para não escrever.
Ter um compromisso de escrita é o equivalente, na academia, a contratar um personal trainer. Ele até te ajuda com os exercícios, mas o que realmente conta é que você não pode faltar. Por maior que fosse o desafio ou a preguiça, eu escrevia porque havia um compromisso.
Safira: começar uma coisa nova não é fácil
Durante o desafio, mantive um livro de registros com o título dos textos, a data e a quantidade de palavras escritas. Em determinado momento, resolvi dar uma olhada nesses registros para saber quanto tempo faltava para terminar. Com certeza eu já estaria perto do final, porque estava exausto.
Quando olhei os registros, descobri que ainda estava no dia 7. Tinha completado apenas um quarto do desafio. Isso mostra que a percepção que temos do próprio esforço pode nos enganar logo no começo.
Rubi: busque técnicas para driblar o bloqueio criativo
Uma das maiores dificuldades da escrita é sentar em frente ao computador sem saber o que escrever. Descobri que deixar uma ideia engatilhada com antecedência ajuda muito. Assim como mantenho uma lista com mais de 100 opções de títulos de vídeos, criei uma mini lista com temas para escrever durante o desafio. Com isso, acabei com a possibilidade de travar na tela em branco.
Outra coisa interessante foi que, em momentos de ócio, eu me pegava pensando em temas, desenvolvendo ideias mentalmente e às vezes até estruturando parágrafos. Lavar louça, tomar banho e caminhar se tornaram sinônimos de exercitar ideias. Quando eu abria o arquivo no computador, era só escrever.
Ametista: foco é uma faca de dois gumes
Como meu cérebro estava constantemente pensando nos textos do desafio, eu não conseguia pensar em quase mais nada. Meu livro, que eu esperava avançar em pelo menos 8 capítulos nesse período, ficou completamente parado. Era como se minha mente estivesse no modo desafio e não conseguisse pensar nos personagens.
Mas esse não foi o único motivo. No desafio, eu precisava escrever cerca de 300 palavras por dia, o que é bem realista levando em conta trabalho, família e um canal no YouTube recém-criado. Tentar encaixar mais 2.000 palavras por dia nessa mesma rotina não foi nada realista. Se a meta fosse escrever os textos e os oito capítulos, eu teria falhado miseravelmente.
Turquesa: conheça a si mesmo para traçar metas realistas
Essa lição veio diretamente da experiência anterior. Não adianta criar uma meta ambiciosa que ignora as limitações reais da sua rotina. A consistência depende de metas que você consegue cumprir, não de metas que você admira de longe.
Então, a regra dos 28 dias funciona?
Sim. E não.
28 não é um número mágico que, uma vez ultrapassado, fará com que você escreva todos os dias sem esforço. Se você quer manter um ritmo de escrita, vai encontrar dificuldades mesmo depois dos 28 dias. Ouso dizer que mesmo depois de 28 meses. Mas fica mais fácil com o tempo. Não acredito, porém, que chegue a um ponto onde não haja esforço nenhum.
O que eu decidi fazer depois dos 28 dias
Ao invés de impor regras genéricas que talvez não se adequem a todo mundo, vou compartilhar o que decidi fazer com base no que aprendi.
Escrever todos os dias para mim seria insustentável. Cinco dias por semana me parece adequado, mas só vou ter certeza com o tempo. Dois mini artigos, um roteiro de vídeo e um capítulo de livro por semana também me soa plausível. E vou manter o hábito de definir o que escrever no dia anterior para não sofrer com o bloqueio da tela em branco.
Essas são as minhas metas, equilibradas e realistas para a minha rotina. Você pode usar tudo o que foi discutido aqui como ponto de partida, mas só vai descobrir o que funciona para você quando praticar.
Esmeralda: a pedra bônus
Existe ainda uma última pedra preciosa nessa jornada. Sozinha ela não tem muito valor, mas pode potencializar todas as outras e ser o fator definitivo da consistência na escrita. Essa, inclusive, é que dá nome a nossa comunidade. Sim, a esmeralda são os amigos que fazemos no caminho. Ou algo do tipo.
E se não entendeu, entre na nossa comunidade do Discord. Tem o link em algum lugar no site.
Tchau.