Como criar personagens odiados
Grão-Mestre da Guilda
Todo escritor sabe como é difícil criar um personagem que o público realmente ame. Mas e quando você quer fazer o contrário? Criar um personagem que todos, absolutamente todos, odeiem. Seja um vilão, um antagonista ou até mesmo um coadjuvante, esse tipo de personagem tem um papel crucial na história. E fazê-lo de maneira convincente exige técnica. E se é questão de técnica, pode ser aprendido.
Neste post, você vai descobrir o que faz um personagem se tornar detestável, quais as 5 características que provocam aversão no público e para que diabos você iria querer um personagem desses na sua história.
As Runas Ancestrais do Ódio
Para organizar as coisas, vamos trabalhar com um conceito chamado de Runas Ancestrais do Ódio. O ponto mais interessante sobre essas runas é que elas não têm tanto poder quando usadas de forma separada. Juntas, porém, ficam muito mais fortes.
Por isso, você vai perceber que os personagens mais odiados da ficção quase sempre combinam várias runas ao mesmo tempo.
Runa 1: A Crueldade
A mais simples e, ao mesmo tempo, uma das mais poderosas. Se você não é um psicopata, ver alguém infligindo dor e sofrimento em outra pessoa sem motivo justificável vai te deixar furioso. É uma reação quase automática.
O exemplo clássico aqui é Joffrey Baratheon, de Game of Thrones. Ele usa quase todas as runas: é sádico, mimado e arrogante. Mas é a crueldade que chama mais atenção e faz com que praticamente todo mundo o odeie. E olha que essa série tem muitos personagens detestáveis, o que reforça ainda mais o poder dessa runa.
Runa 2: O Falso Mérito
Essa runa eleva um personagem a uma posição de autoridade sem que ele mereça. Ele chega ao topo por indicação, sorte ou meios escusos. Com esse poder nas mãos, ele passa a oprimir ou humilhar os outros. O abuso de poder gera um senso de injustiça que costuma provocar um ódio profundo nos leitores.
Um bom exemplo aqui é Orochi, do arco de Wano em One Piece. Ele ocupa a posição de Shogun, que na verdade pertence de direito a um personagem que o público ama. Além disso, ele abusa sem cerimônia do status que essa posição lhe concede. Vale a curiosidade: Oda é um mestre no uso das runas do ódio.
Runa 3: A Covardia
Aqui não se trata de falta de coragem no sentido tradicional. Essa runa representa abusar de alguém mais fraco ou impossibilitado de revidar. Ela caminha lado a lado com a runa da crueldade, mas há uma diferença sutil:
- Você pode ser cruel com alguém mais forte do que você
- Você pode ser covarde sem necessariamente ser cruel
- Mas se fizer os dois ao mesmo tempo, com certeza será odiado por todo mundo
O exemplo perfeito é Percy Wetmore, de A Espera de um Milagre. Ele se aproveita da posição de guarda para fazer mal aos prisioneiros. Os detentos até poderiam ser fisicamente mais fortes do que ele, mas estão impossibilitados de reagir. E o poder das runas fica evidente aqui: mesmo que os prisioneiros tenham cometido crimes hediondos, o leitor ainda torce para que um deles quebre a cara do Percy.
Runa 4: A Traição
Talvez seja a runa mais fraca das cinco quando usada sozinha. Se aplicada de forma isolada, pode não causar o efeito desejado. Ainda assim, é uma ótima runa de suporte. Personagens que traem a confiança dos outros são frequentemente odiados porque essa traição quebra a conexão emocional com o público, especialmente quando envolve personagens que os leitores amam.
O exemplo aqui é Scar, de O Rei Leão. Uma análise mais cuidadosa revela nele traços carismáticos de um bom vilão. O problema é que Scar comete uma das traições mais infames da Disney: assassinar o próprio irmão, Mufasa, para tomar o trono. Ele não só trai a família, mas destrói a harmonia de todo um reino.
Runa 5: A Irritação
Essa é a runa especial. Ela é bem diferente de todas as outras e é a única que deve ser usada sozinha. Um personagem com atitudes irritantes, exageradas ou fora de lugar costuma causar repulsa nos leitores, mesmo que não seja um vilão. Personagens que não agregam valor à trama acabam sendo rejeitados porque atrasam o ritmo da história. Você quer saber o que vai acontecer a seguir, mas esse personagem não para de atrapalhar. O nome para esse fenômeno é “empaca trama”. E por ser visto como uma adição desnecessária, ele é odiado.
O exemplo dispensa explicações detalhadas. Três palavras: Jar Jar Binks.
Bônus: As Runas Inferiores
Se você quiser potencializar ainda mais o efeito das runas principais, adicione características de suporte ao seu personagem. Só tome cuidado para não exagerar, pois personagens muito carregados de defeitos podem perder a verossimilhança.
Por que Criar um Personagem Odiado?
Chegou a hora de responder a pergunta mais importante: para que serve tudo isso? Existem alguns motivos, mas os dois principais são:
Clímax
Se a sua obra envolve um final com o protagonista derrotando o vilão, as runas do ódio podem potencializar esse momento decisivo. Fazer o herói salvar o mundo é legal, mas pode ficar genérico se não for feito da forma certa.
Em obras de ficção, tendemos a não nos importar tanto com bilhões de pessoas fictícias. Mas quando o herói salva o mundo e derrota um vilão que o leitor odeia de verdade, o resultado é um momento de êxtase genuíno no clímax da história.
Vingança
Você já se perguntou por que achamos a vingança algo ruim na vida real, mas adoramos histórias de vingança na ficção?
A resposta está nas técnicas narrativas. Uma delas é justamente usar as runas ancestrais para criar antagonistas odiados. Dessa forma, o cérebro do leitor cria justificativas inconscientes para que o protagonista aja de forma vingativa. Não é o único elemento que sustenta uma boa história de vingança, mas é um dos mais poderosos.
Conclusão
Criar um personagem detestável não é sobre gratuidade nem sobre crueldade sem propósito. É sobre técnica narrativa a serviço da história. As Runas do Ódio, quando bem aplicadas, tornam os clímaxes mais impactantes, as vinganças mais satisfatórias e a experiência do leitor muito mais intensa.
Agora é a sua vez: qual personagem odiado te vem à cabeça quando pensa nessas runas? Deixe nos comentários e compartilhe esse post com outros escritores que podem se beneficiar dessas técnicas.