O conto abaixo foi escrito para o Torneio das Plumas Reais realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em 2025. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Dean Marveleiro”
O céu de Varkheim não tem nuvens, apenas cicatrizes. Listras de um roxo necrosado rasgam o firmamento, banhando a areia vermelha que se infiltra em cada fresta da armadura estilhaçada de Hawks. Encolhido sob a sombra de uma cordilheira que imita ossos petrificados, o soldado tenta rabiscar um último clamor em um pergaminho. Sua farda, outrora do azul imaculado da Terceira Ala de Prata, agora é uma crosta rígida de fuligem e sangue seco.
A rocha sob o papel vibra com o marchar de legiões abissais. Hawks luta para escrever com a canhota. O braço direito, que por dez anos empunhou sua espada, termina agora em um toco irregular. A ferida chora sangue grosso, pulsando no mesmo ritmo frenético de seu coração. Cada batida é uma agonia física.
“Urgente. A Terceira Ala caiu. Cercados por abominações do Abismo. Enviem reforços.”
Ele dobra o papel com os dentes e o sela em um envelope que guarda na gola da farda. Do outro lado da montanha, variados sons tenta o enlouquecer: não são apenas os gritos de seus companheiros, mas o som úmido de carne sendo rasgada e o triturar de ossos, pontuados por risadas guturais. O que sobrou da sua esquadra está sendo devorado.
— Mana para dois feitiços — sussurra Hawks, a voz arranhando a garganta seca. — Duas chances de não morrer como um animal.
Ele afunda o indicador esquerdo na própria carne viva do ombro. Tremendo, traça a runa de Transmissão Astral no envelope. O papel reage, irradiando uma luz azul-celeste que lhe drena mais um fôlego de vida.
— Pelo ar eu envio… em tuas mãos eu confio.
O envelope se desfaz em fagulhas de éter e desaparece no vento. O esforço o derruba contra a rocha. Ele anseia pelo sono, mas Varkheim não permite descanso para os fracos. Seus olhos âmbar, opacos pela febre, varrem o horizonte. Subitamente, o silêncio engole a montanha. O chão para de tremer.
Um baque surdo. Uma sombra colossal despenca, bloqueando a luz doente do sol.
Hawks ergue o pescoço, os músculos gritando. Uma blasfêmia biológica o encara: um humanoide de quatro metros, a carne exposta e latejante, com buracos negros no lugar dos olhos vertendo um lodo viscoso. A saliva do monstro pinga e corrói a pedra vermelha. Ele não ataca; mas saboreia o pavor e o cheiro doce de hemorragia. Para a abominação, Hawks não é uma ameaça, mas um resto de refeição.
Um sorriso quebrado surge nos lábios do soldado.
— Passo Leve, Sopro Veloz! — ruge ele.
O segundo feitiço detona. Uma aura de vento hipercomprimido o engolfa, arremessando-o para trás em um borrão azul. A areia vermelha sobe como uma cortina. Ele ouve o urro de frustração do gigante ficar para trás enquanto rasga o ar a centenas de metros de distância.
Contudo, antes de contornar a curva da montanha, algo corta a sua trajetória. É rápido demais para o olho humano. Duas foices quitinosas, farpadas e cobertas por um muco cáustico, perfuram seus ombros. O impacto brutal o prega na parede rochosa, estilhaçando suas clavículas.
Uma Sentinela do Abismo. O louva-a-deus monstruoso inclina a cabeça triangular, as mandíbulas estalando enquanto as patas cavoucam o chão, impacientes. Hawks tosse uma espessa torrente de sangue. O frio do metal orgânico penetra seus ossos; as bordas de sua visão escurecem em uma vinheta implacável. A criatura abre as presas, engrenagens de ossos afiados girando em sua garganta.
Hawks fecha os olhos. Enquanto seu último pensamento fluía como o vento:
“Fiz o que pude.”
Então, algo ruge. Não é o Abismo. É a ira dos céus.
Um pilar de luz azul desaba das nuvens e atinge a sentinela com a fúria de um cometa. A criatura é vaporizada antes de emitir qualquer som, deixando apenas cinzas no ar. A onda de choque sacode Hawks, mas, através da névoa de dor quase absoluta, ele escuta a sinfonia mais bela de sua vida: o bater rítmico de botas blindadas e a ordem inflexível de vozes humanas.
— Formação em círculo! Protejam o sinalizador! — A voz de aço do Comandante Valerius corta a ventania.
Cavaleiros em fardas azuis e placas reluzentes, erguendo escudos entalhados com runas de repulsão, isolam o perímetro. O selo astral os guiou. Não é apenas um pelotão de resgate; a vanguarda do Império desceu sobre Varkheim.
Mãos revestidas de metal amparam o soldado caído. Magia curativa morna envolve seus ombros mutilados, mas Hawks sabe que é em vão. Seu núcleo de mana está vazio, e seu corpo já aceitou a rendição.
Ele ergue o olhar opaco. O Comandante se ajoelha ao seu lado. Hawks não tem forças para articular palavras, mas o silêncio entre eles é preenchido de reverência. Nos olhos do superior, o soldado encontra o reconhecimento que almejou.
O sol desaba no horizonte. As sombras das rochas não abrigam mais demônios, mas tecem um cobertor escuro e tranquilo. O choque das espadas contra as carapaças ecoa ao longe, transformando-se em uma estranha canção de ninar.
Hawks solta um último suspiro. Pela primeira vez em dias, o vento de Varkheim não traz o medo da morte. Com um sorriso imperceptível, ele deixa a cabeça pender. Seu coração bate, calmo e lento, pela última vez, enquanto a luz implacável da Ala de Prata avança e retoma a terra tingida de sangue.