Como criar uma história de assalto
Grão-Mestre da Guilda
Hoje vamos explorar juntos os elementos essenciais para criar uma história de assalto. E se você escreve fantasia, ficção científica, horror cósmico ou qualquer outro gênero e acha que esse tipo de trama não tem nada a ver com o seu trabalho, preciso te dizer: você está errado. Até o final deste texto, vou mostrar como um assalto bem construído pode transformar uma ideia comum em uma trama fantástica.
Eu amo histórias de assalto bem construídas. O problema é que elas são raras, porque não é fácil criar um enredo que conecte vários personagens de forma emocionante e, ao mesmo tempo, construa uma trama imprevisível. Mas quando isso é feito direito, o resultado é incrível.
A Estrutura
O assalto é um arquétipo de trama, o que significa que, se você pegar todas as histórias desse tipo já criadas, vai encontrar coisas que se repetem em todas elas. Essas coisas se dividem em estrutura e elementos.
Seria impossível falar sobre esse arquétipo sem citar Onze Homens e Um Segredo. Se você não conhece, recomendo fortemente que assista antes de continuar, porque ele será a nossa referência ao longo do texto.
Vamos começar pela estrutura, que segue a regra narrativa mais básica: começo, meio e fim.
Começo: O protagonista é abordado por um contratante — ou decide por conta própria — realizar um assalto. Para isso, precisa reunir uma equipe. O primeiro ato consiste basicamente em apresentar os personagens, suas motivações e suas habilidades.
Meio: Três coisas essenciais precisam acontecer nessa parte, mas não de forma ordenada. Para a história fluir de maneira natural e interessante, elas precisam se entrelaçar:
- O desenvolvimento das relações entre os personagens
- A apresentação do local do roubo e/ou do alvo
- A criação do plano
Fim: O grupo realiza o assalto. Aqui existem duas possibilidades. A primeira, mais simples, é aquela em que algo dá errado, o plano vai por água abaixo e a equipe precisa improvisar. A segunda — utilizada em Onze Homens e Um Segredo — é mais sofisticada: um plano é apresentado ao público, as coisas parecem sair do controle, mas na verdade havia um segundo plano em andamento, revelado apenas no final em uma grande reviravolta.
Essa segunda escolha é a mais difícil de executar. Se parecer um Deus Ex Machina, o leitor vai se sentir enganado e vai odiar a obra. Mas se você semear pistas ao longo da história e a revelação final for satisfatória, você terá uma obra-prima nas mãos.
Os Elementos
Além da estrutura, existem elementos que permeiam esse tipo de trama. Alguns são obrigatórios, outros opcionais.
Um bom motivo. Nosso cérebro sabe que roubar é errado, então o protagonista precisa de uma razão convincente para realizar o assalto. E não, dinheiro não é suficiente. Você precisa de algo pessoal, algo que faça sentido na cabeça do leitor.
Equipe multidisciplinar. Uma das coisas mais interessantes de um assalto é ver a interação do grupo e como suas diferentes habilidades entram em prática. A pior coisa que você pode fazer é criar seis personagens especialistas na mesma área.
Um novato no ramo. É comum incluir um personagem que está começando no ofício. Ele não precisa ser o protagonista, mas existe para transmitir informações ao leitor de forma orgânica, eliminando diálogos expositivos forçados. Em vez de um veterano explicando algo sem motivo, você pode mostrar o novato fazendo perguntas naturais ao grupo.
Envolvimento amoroso. Totalmente opcional, mas eficaz para criar tensão. Imagine uma cena em que o protagonista precisa escolher entre cumprir sua parte no plano ou salvar a pessoa amada. O que ele fará?
Um traidor. Quase um clichê, por isso precisa ser bem executado. Um dos integrantes do grupo trai todos no final para ficar com o butim.
Um vilão como alvo (bônus). Um assalto não precisa de vilões, mas tornar o alvo do roubo alguém moralmente reprovável ajuda o leitor a torcer pelos ladrões. É mais empolgante saber que estamos roubando de alguém mau do que de um museu qualquer.
Além do Crime: O Arquétipo em Outros Gêneros
Agora chegou a parte mais interessante: como usar esse arquétipo em outros gêneros. A resposta é simples: criatividade.
Em 2006, Brandon Sanderson publicou Mistborn, um assalto ambientado em um mundo de fantasia. Alguns anos depois, Christopher Nolan criou A Origem, um filme de assalto dentro dos sonhos. A Disney fez o mesmo no universo de Star Wars com Rogue One. E em Vingadores: Ultimato, os heróis não invadiram castelos nem naves, eles invadiram o próprio tempo.
Todas essas tramas seguem o arquétipo do assalto e, ainda assim, são completamente diferentes entre si. O que significa que você também pode fazer isso no seu mundo.
Precisa de exemplos práticos? Veja só:
- Ação e fantasia: No Japão Feudal, um Ronin é contratado para invadir uma guilda steampunk e roubar o pergaminho mágico que pode mudar o rumo da guerra.
- Terror: Um homem contrata uma garota com poderes paranormais para invadir sua antiga casa mal-assombrada, recuperar sua aliança de casamento e libertar a alma de sua falecida esposa.
- Romance: A jovem Laila se muda e percebe que esqueceu seu diário na casa antiga. Ao voltar, descobre que já há uma nova família morando lá, a família do quarterback da escola, por quem ela é secretamente apaixonada e sobre quem escreveu tudo no diário. Ela precisa recuperá-lo antes que ele descubra seu segredo.
Uma Advertência Final
Conhecer a estrutura e os elementos não é garantia de uma boa história. Em 2021, Zack Snyder criou um filme de assalto com zumbis (Army of the Dead) e o resultado ficou muito abaixo do potencial. Estrutura é ponto de partida, não destino. A boa execução é essensial.