O conto abaixo foi escrito para o Torneio das Plumas Reais realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em 2026. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Dean Marveleiro”
A sala principal da mansão de Diana Barbosa exalava o cheiro de madeira antiga e segredos mal guardados. Sentados em sofás de veludo, os investigadores paranormais Tomas e Ashley buscavam conforto em xícaras de café. A lareira, única fonte de luz, projetava sombras que pareciam ganhar vida nas paredes. Lá fora, o vento fustigava a colina isolada, desconectando-os do mundo exterior.
Tomas vestia um sobretudo escuro que parecia absorver a penumbra, enquanto Ashley usava um modelo idêntico, porém rosa. O badalar rítmico do relógio de pêndulo martelava o silêncio, gerando um desconforto crescente na jovem.
— Sabe, mestre… — começou ela, soprando a fumaça que trazia o aroma doce do café. — Você não é de aceitar casos baseados em meras suposições, com taxas de sucesso quase nulas. Por que nos trouxe até aqui?
Tomas levou a xícara aos lábios, saboreando o amargor antes de responder.
— Você tem um ponto, minha cara. De fato, as chances de provar qualquer fenômeno aqui eram ínfimas. Não existem registros ou lendas sobre esta casa nem mesmo em fóruns da Internet. Nossa investigação inicial também não revelou nada concreto.
— Então, insisto: por quê?
— Porque algo nesta arquitetura me convida ao desvendamento.
Tomas desviou o olhar para o imenso quadro acima da lareira. O retrato mostrava uma mulher de cabelos curtos, tão negros quanto o abismo de seus olhos, trajando um vestido carmesim. As cores mortas do fundo faziam a figura saltar da tela, tornando-a uma entidade celestial em um mundo de sombras.
— Não é magnífica? — Tomas levantou-se, e o chão de madeira rangeu como um lamento sob seus passos. — Creio que nos precipitamos quanto à identidade do suposto espírito.
Ashley deu um gole generoso no café, cética.
— O senhor suspeita de outro familiar? Ora, mestre, talvez seja apenas uma casa comum e estejamos mistificando o vazio.
— Novamente, você tem um bom ponto — ele caminhou até a lareira. — Mas e se esse ceticismo for exatamente o que a entidade deseja que sintamos?
Ashley ergueu a sobrancelha, intrigada.
— Um fantasma que se oculta para não atrair atenção? É tão absurdo que começa a fazer sentido.
— Exato. Alguém que trabalhou arduamente para manter a fachada de normalidade. Talvez para evitar curiosos como nós ou para proteger o que restou de seu mundo por valor sentimental.
— Mas como o senhor concluiu isso sem uma única prova material? Como sabe que o espírito é “tímido”?
— Suas perguntas são excelentes, Ashley. Mais um ponto para você.
“Se ele repetir isso, eu perco a paciência”, pensou a garota, embora seus olhos implorassem pelo fim do mistério.
— Bem, não pergunte a mim — Tomas estendeu a mão em direção à dama de carmesim. — Pergunte a ela.
— À Diana Barbosa?
— Pois é. Lembra-se da atração que senti? Olhar para este retrato me trouxe a pergunta definitiva: e se o fantasma não for a dona da casa?
Ashley deu um sobressalto, quase derrubando a xícara.
— Espere. O senhor acredita que há um espírito pacífico, que não é a proprietária, mas que protege o lugar mesmo assim?
— Bingo! — Tomas fez o sinal de um revólver com os dedos na direção da parceira.
— E como pretende provar essa teoria? — Ela cruzou os braços.
— Simples — respondeu ele, com uma sinceridade quase desconcertante.
Tomas inclinou-se, pegou um graveto em chamas da lareira e soltou-o sobre o assoalho. O objeto caiu em câmera lenta, uma ameaça de incêndio iminente. No milímetro anterior ao toque no chão, o graveto estancou no ar. A parada brusca extinguiu as chamas instantaneamente. Ashley levou a mão à boca, enquanto Tomas exibia um sorriso vitorioso.
— Finalmente você decidiu se revelar.
Atendendo ao chamado, uma forma etérea emergiu do solo. Era uma mulher de feições suaves, vestindo um uniforme de governanta com um emblema de flor no peito esquerdo. Ela flutuou diante da lareira e segurou as pontas da saia em uma reverência impecável.
— Boa tarde, senhor… e boa tarde, senhora. Meu nome é Miriam, serviçal particular da senhorita Diana.
“Uma governanta… clássico”, pensou Tomas.
“O mestre tinha razão! Havia realmente um fantasma entre nós”, Ashley ainda processava o choque.
— O que os traz à nossa morada? — Questionou a aparição, sua voz soava como um eco distante.
— É uma boa pergunta — Ashley retomou a postura. — Em resumo: Algumas pessoas acusaram esta casa de ser assombrada. Meu mestre sentiu algo e nos trouxe aqui em busca de uma comprovação oficial. E aqui está a senhora.
O olhar de Miriam vacilou. Suas mãos translúcidas tremeram.
— Então… os senhores são… exorcistas?
— Investigadores paranormais — corrigiu Tomas. — Mas não trouxemos ferramentas de banimento hoje.
— Que pena… — sussurrou Miriam, baixando a cabeça.
— Pena? — questionou Ashley, surpresa.
Miriam não respondeu de imediato. Ela flutuou até o retrato de Diana Barbosa, estendendo os dedos pálidos que atravessaram a moldura. Lágrimas cristalinas começaram a escorrer por seu rosto etéreo.
— Me perdoe, mestra… — soluçou a governanta. — Fui covarde demais para deixá-la partir, e agora, sou covarde demais para seguir sem você.
Miriam tentou abraçar o retrato, mas aquela tempestade de emoções acelerou seu processo de purificação. Ashley e Tomas jamais haviam testemunhado um fenômeno como aquele: um espírito que se exorcizava por vontade própria ao finalmente encontrar a paz. Diante de seus olhos, a governanta desvaneceu, transformando-se em um último lampejo de luz antes de desaparecer por completo.
Sem forças para processar o ocorrido, as pernas dos investigadores cederam. Ambos desabaram em seus respectivos sofás, envolvidos pelo silêncio súbito que retornou à sala.
— O que… foi tudo isso? — perguntou Ashley, a voz trêmula, buscando uma resposta acolhedora de seu mentor.
Tomas suspirou pesadamente. Ele levou a mão ao rosto, cobrindo os olhos em um gesto de exaustão, enquanto sua voz saía embargada, como se estivesse à beira das lágrimas.
— Eu… — ele pausou, buscando palavras que não existiam. — Eu não sei.
Ashley desviou o olhar para a janela. Lá fora, o mundo continuava escuro; a tempestade ainda não havia passado. Os deixando com tempo de sobra para refletirem antes de retornar as suas vidas.