Um Salto para Frente

O conto abaixo foi escrito para o torneio Baralho Narrativo realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em Novembro de 2025. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Kamui”


Em Fennir, uma cidade de ferro e fogo, Kay e Aika eram apenas crianças em meio à guerra de visões entre Hanzo e Urik. A tragédia da perda — que tirou a vida de Hanzo e de outros amigos — quebrou Aika em duas: a culpa e a dor ficaram com a garota de cabelos rosados, e a fúria psicótica nasceu como Éris.

Aika perseguiu Kay, o observando de longe enquanto ele entregava uma das Gemas MK para cientistas imperiais, escondidos entre as Vielas de Fennir para um projeto secreto que poderia mudar a história do mundo. 

Kay acreditava que nem todos os Imperiais eram ruins. Ele confia o projeto a Lea e Cory, se despede e volta para ajudar seu povo em Fennir.

— Não! Não, não, não! É só… É só um abraço de despedida! — Aika recuou da fresta onde observava, debatendo-se.

Foi quando uma explosão irrompeu do núcleo MK, ficando instável. Aika, porém, olhava para o outro lado nesse momento, procurando por Kay, o vendo correr de volta.

— AHRF! — Um arrepio gélido a percorreu e seus olhos marejaram. — Mentiroso… 

Aika invadiu o local sorrateiramente, percebendo ali que a Gema MK estava na posse daqueles imperiais. Surgiu diante dos cientistas como um fantasma de olhos lilases, exigindo a Gema. Lea tentou atirar nela, contudo, Aika foi mais rápida. Lea caiu ao mesmo tempo que Cory contra atacava — os disparos não alcançaram Aika — a mira dela, porém, era certeira.

Kay voltava correndo após ouvir a explosão, e ali, ele percebeu:

As infames botas personalizadas de cano médio revelaram-se como um detalhe inconfundível em meio a neblina. Os passos da jovem eram calmos, decididos e relaxados.

— Ah, oi Kay. — Ela sorriu enquanto rodopiava a pistola customizada. — Seu traidor. 

Na visão de Aika, Kay era inundado por rabiscos e sombras, acompanhados por frames de um sorriso perturbador.

— Aika— 

— ÉRIS! — Ela o corrigiu, escancarando os olhos. — Mas que merda… Você deu a Gema pra ELES!? O Urik tava certo? D-diz que eles te forçaram!

Kay balançou a cabeça, os cabelos vermelhos serpenteando no ar.

— Você não consegue mesmo ver? O Urik tá te usando! Mesmo que você o veja como pai, ele—

— Não! Você… tá mentindo! — Aika apertou a cabeça, sua visão turvando em vultos e vozes disputando o controle de sua mente. — AHRGG, CALEM A BOCA!!

Kay avançou, mas parou no mesmo instante em que viu os corpos de Lea e Cory. O ar fugiu de seus pulmões ao mesmo tempo que uma fúria fulminante lhe tomava.

— Não vai me enganar, garoto salvador! De novo não… — Disse Aika de repente.

Ao ouvir aquilo, Kay apertou os lábios, lembrando-se de uma memória. A irritação se converteu em um sarcasmo frio. Ele virou-se de lado, uma posição que Aika reconheceu na hora.

🪶🪶

— Aika, vamos de novo! — Chamou Kay.

— Haha, você gosta assim de perder!?

— Você só teve sorte.

Aika virou-se de lado com uma panela na cabeça, e uma arma de tinta na mão, fazendo um sinal de chifres na testa.

Kay do outro lado, fazia a mesma pose.

🪶🪶

No presente, Aika virou-se de lado, imitando Kay. Soltando um riso provocativo. Kay então avançou com o ódio queimando em seus olhos dourados. Aika abriu fogo freneticamente, mas sua mira estava curiosamente imprecisa.

Kay alcançou-a num piscar de olhos, saltando. O primeiro golpe atingiu-lhe o rosto. Aika cambaleou e tentou reerguer a pistola, mas Kay desvencilhou a arma e aplicou o segundo soco, fazendo os dois irem ao chão.

Caída, Aika debateu os braços, tentando em vão evitar a torrente de socos furiosos de Kay.

Os golpes a acertaram com violência, arrancando gemidos e salpicando sangue pelo chão.

Kay se preparava para lançar outro soco, quando viu Aika banhada em sangue e lágrimas, os olhos curvando-se em um peso tão aterrador, que soava como um grito de socorro.

Ela suspirou, fechando os olhos e deixando uma granada rolar pelo chão, como se ali, ela tivesse só se entregando ao acaso.

Kay recuou, puxando Aika junto por instinto. Ele foi lançado para trás com a explosão, caindo no Núcleo MK. Sentiu seu corpo vibrar enquanto a realidade esticou-se como massa fina antes de dissolver-se em um borrão escuro

🪶🪶

Kay sentiu despencar como se caísse em um poço sem fundo, até que finalmente parou de forma inexplicável. Olhou para os lados sem entender nada e viu um espelho, onde notou sua aparência completamente diferente do normal.

— Oi, garotão! — Disse uma voz feminina.

Kay pulou num susto, jogando um livro contra ela e assumindo a pose de luta. 

A mulher desviou e lançou um olhar confuso.

— Hehehe. Você… jogou isso em mim?

A garota tinha cabelo rosa, olhos lilases e uma familiaridade inquestionável.

— Hey, pessoal. Que agitação toda é essa? — Disse um homem, entrando no cômodo com algumas caixas. — Sei que estão animados pra festa, mas é só hoje a noite.

Kay ficou incrédulo.

— Sabe como são os gênios. — Disse Aika, abraçando Kay e fazendo um sinal de chifres na testa dele enquanto sorria. — Sempre tem uma pitada de loucura!

— Hanzo?… — Disse Kay, indo até o homem e o abraçando em um gesto quase automático depois de derrubar as caixas.

— Hoho, tudo bem aí, garoto? — Hanzo retribuiu o abraço, mesmo estranhando a situação.

 🪶🪶

Ela estava tão…, diferente. A pele parecia mais quente, o semblante mais alegre e um brilho inexplicável pairava em seus olhos. Aika passou a mão à frente do rosto de Kay, estalando os dedos.

— Ow, cabeção!? Tá aí?

 — Ah! S-sim…

— Então, como eu tava dizendo…

Disse Aika se recostando nele.

Kay, porém, se afastou num susto, fazendo Aika dar um pulo para trás e derrubar seu copo.

— Ow, o que você tem? Acordou estranho… — Disse Aika arrumando a caneca..

— Eu tô sentindo que despertei no mundo errado…

— É o que acontece quando você fica acordado a noite inteira. Suas sinapses ficam iguais lesmas lerdas… Enfim, melhor ficar bem pra hoje a noite, afinal você é meu par.

Kay engoliu seco, franzindo os olhos.

— S-seu par?

— Sim? Quem mais seria? você é meu namorado, duh! — Aika fez uma expressão, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

🪶🪶

A música dominou o grande salão, tomando a penumbra com canhões de luzes que cintilavam para todos os lados. Ao redor, as pessoas conversavam sobre seus projetos e se deixavam levar pela sinfonia.

Kay se recostava em um balcão ali, admirado com aquele show.

— Faz tempo que não vejo esse lugar tão animado. — Disse Hanzo servindo algumas bebidas. — Onde está aquela mocinha?

— Ela falou algo sobre fazer uma entrada… — Respondeu Kay.

— Ah, ela ama um espetáculo, não?

Kay soltou um riso, lembrando de sua Aika.

— Ah, se ama!

— Aposto que não tanto quanto um certo alguém de cabelos vermelhos.

— Urik? — Indagou Kay.

— Não achou que eu iria perder a festa, achou?

Aquilo realmente chamou a atenção do jovem. Hanzo, Urik e Aika não estavam só bem, mas eram como uma família.

Um pouco acima do salão, a DJ trocou o disco musical, fazendo uma sinfonia ainda mais envolvente tomar o palco.

No meio de tantos movimentos anônimos, as infames botas personalizadas de cano médio revelaram-se como um detalhe inconfundível. Os passos da jovem eram calmos, decididos e relaxados.

Os feixes de luz convergiram por um momento, encontrando Aika quase como um movimento ensaiado. A jovem de cabelos brilhantes surgiu tão radiante, que naquele momento, era como ver a própria luz do sol. 

Seus olhos dourados brilharam, e o mundo se dissolveu. O tempo pareceu desacelerar, concedendo-lhe o luxo de eternizar cada traço de Aika.

Um vestido branco solto, justo no torso, jaqueta preta com detalhes vermelhos, botas de mesmo tom com detalhes prateados criavam um contraste ousado. O lilás de seus olhos casavam perfeitamente com o rosa escuro de seus cabelos curtos. 

Kay se moveu até ela. Meio tímido, meio sem saber o que fazer. Ele apenas… Deixou fluir. Isso tudo, era como um sonho. Um sonho do qual ele não queria acordar.

Ambos se aproximaram lentamente, trocando olhares, admirando um ao outro. A música reverberava em suas peles, quase implorando por um movimento.

Kay vestia um paletó personalizado verde — com toques vermelhos e detalhes prateados e dourados — combinando com seus olhos.

Moviam-se lentamente, absorvidos pelo compasso inebriante da música.

Aika deixou os braços acompanharem o ritmo, enquanto um sorriso sereno e genuíno iluminava seu rosto. Elegante, ela pegou a saia, harmonizando os passos com os de Kay em incrível sincronia.

Ela girou, deixando a saia branca rodopiar no ar enquanto circundava seu parceiro.

As mãos se ergueram e encontraram-se. O jovem de cabelos vermelhos a pegou delicadamente, puxando-a para mais um giro. Aika se afastou no ritmo, apenas para ser puxada com graça de volta aos braços dele. Mergulharam os olhares um do outro, admirando a beleza etérea de suas íris.

Kay não resistiu. Acariciou o rosto dela, sentindo a maciez de sua pele, de seus cabelos rosados. Ela o correspondeu. Fechou os olhos, suspirando e afagando a própria bochecha nos dedos quentes dele, o olhando com um sorriso meigo.

Aika piscou, deslizando sua mão pelo rosto de Kay, sentindo seu ardor, mimando cada traço.

Ele desejou ter nascido neste mundo. Desejou essa versão de sua velha amiga que era… Inteira. Sentiu-se estranhamente culpado por isso.

🪶🪶

— Noite legal — disse Aika, sorrindo enquanto se apoiava no chão da varanda. A brisa leve agitava seus cabelos ondulados.

— É, tá bem bonita mesmo. — Respondeu Kay, admirando o luar bem ao lado dela. o sopro do vento bagunçando levemente seus cabelos vermelhos.

Aika o olhou, curiosa.

— Onde aprendeu aqueles passos? 

— Ah, eu só segui o seu embalo.

— Há! Hmmm… se virou bem.

Ela riu baixinho, inclinando o ombro no dele.

Kay remexeu os dedos enquanto olhava para os lados. 

— Olha, Eu… Eu só quero agradecer. Por tudo, sabe? Eu sonhava que as vielas pudessem ser assim… Um lugar onde as pessoas pudessem viver de verdade.

Kay observou a paisagem lá embaixo, as luzes das casas e dos estabelecimentos iluminavam um cenário organizado, limpo e acolhedor — um contraste doloroso com a visão que ele sempre conhecera. Aquele mundo, aquelas pessoas… Tudo estava exatamente como ele desejava. Não — estava melhor do que ele poderia pedir.

Kay sussurrou:

— Me desculpa…

Aika virou-se para ele, surpresa com o pedido enquanto ele continuava:

— Eu tinha desistido dessa visão… Eu me deixei levar pelas coisas erradas, pelas coisas ruins. E desisti disso. Eu desisti de você…

Os olhos de Kay marejaram. Seus lábios tremeram enquanto um nó se formava em sua garganta. Sentindo-se estranhamente culpado.

— Mas eu nunca te vi desistir de nada, Kay… — Aika deitou-se sobre o ombro dele, sentindo seu calor.

— Você já desejou… ficar em um só momento?

Aika curvou as sobrancelhas em melancolia, fitando as luzes logo abaixo.

— Às vezes, dar um salto pra frente significa… deixar algumas coisas pra trás…

Kay encostou seu rosto sobre os cabelos dela, sentindo sua maciez e seu aroma doce.

— Eu prometo nunca esquecer disso.

— É melhor mesmo! — Aika levantou-se, contemplando os olhos dourados do parceiro.

Ela inclinou-se na direção dele, fechando os olhos, desejando o toque de seus lábios.

— Ah! D-desculpa! E-eu… — Kay disparou, pego de surpresa.

— Ah, tudo bem! É-é que eu… Ah… — ela disse meio sem graça, desviando o olhar.

Kay abaixou os olhos, ficando cabisbaixo.

— A gente… Pode fingir que é a primeira vez?

Aika voltou a mirá-lo. Afagou-lhe o rosto, o fazendo erguer o olhar e encontrar os dela. Ela se deteve nos olhos dourados dele, enquanto um sorriso doce e angelical desabrochava em seu rosto.

Aproximaram-se lentamente, fechando os olhos enquanto suas respirações se tornavam uma só. Até unirem seus lábios em um beijo apaixonado, degustando o sabor doce um do outro com anseio. Um instante que, em seus desejos, poderia durar para sempre.

Apesar do que havia acontecido, a verdade era inegável: Seu mundo ainda existia. Sua Aika ainda estava lá, como uma noite de trevas. E Kay não desistiria dela; não de novo, jamais depois disso. Ela precisava dele; precisava que ele fosse sua luz do sol. Agora, mais do que nunca.