Sangue e paixão
O conto abaixo foi escrito para o Torneio das Plumas Reais realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em 2025. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Felps”
Era meia-noite na pacata Vila dos Girassóis. Ricardo estava sentado na varanda de sua humilde cabana onde vivia com seu marido, Fred, que estava dormindo em seu quarto. A lua pairava pálida no céu à sua frente trazendo uma luz fria. Ele nunca soube se realmente gostava de observar o grande astro, ou apenas o fazia por medo — medo de ela voltar. Ele acreditava mais na segunda opção. De qualquer jeito, sabia que esse temor era desnecessário, não havia chance de ela ir atrás dele, ou nem saber onde ele estava. Ricardo fechou os olhos inspirando fundo o ar frio daquela noite, quando abriu-os, seu sangue gelou: a lua estava vermelha.
Após o choque inicial, ele não hesitou em correr para o quarto, não poderia hesitar. Memórias de um passado distante voltaram numa enchente enquanto caminhava pelos corredores de madeira iluminados pela luz vermelha da lua. Aquela mesma que ele via em seus pesadelos, lembrando dos dias enclausurado naquela torre, quando seu destino era viver por ela.
Enquanto pegava as coisas do banheiro e jogava tudo em uma bolsa, ele encarou fixamente seus próprios olhos escarlates, a maldição que havia definido seu destino. Desde o dia de seu nascimento, sua vida foi celebrada como uma benção. Os seus olhos vermelhos eram tudo que sua família mais precisava. Graças a eles, conseguiram firmar um acordo com a Torre Mágica da Lua de Sangue, prometendo-o em casamento à filha da líder antes mesmo de seu primeiro aniversário. E assim foi a sua infância, sendo criado para ser o homem perfeito para alguém que ele não conhecia, e que só causou desgraça em sua vida.
— Amor? O que você tá fazendo? — Fred falou sonolento na porta do banheiro, estranhando a forma como Ricardo se olhava no espelho.
— Fred… — ele respondeu. Estava pálido e suas mãos tremiam enquanto falava — Olha, temos que nos apressar, pega suas coisas e vamos embora.
— Por quê? — ele perguntou meio assustado.
— Ela voltou Fred, ela veio buscar o que acha que é dela.
— Merda… pensei que a gente tivesse despistado ela em Rio Forte, quando nos encontramos com a Lua Azul.
— Eu também, mas agora não temos tempo — ele saiu do banheiro e começou a organizar outra mochila de pertences essenciais — você tem mana sobrando? Precisamos estar preparados para um caso de combate.
— O suficiente para 2 arcanas maiores. Mas acho que tenho 3 frascos reserva guardados.
— Perfeito, acho que ainda consigo fazer 5 esculturas com o que tenho. Deve ser o suficiente. Só por garantia, tira as arcanas menores do baralho, nenhuma dela seria útil contra ela.
Após colocar tudo, Ricardo ajeitou a bolsa em suas costas e, junto de Fred, saiu da casa. A noite, anteriormente pacífica e calma com uma pálida lua brilhante, agora era um terror. O céu carmesim dava um aspecto de fim de mundo, que era complementado pelo astro sangrento brilhando nele.
— Nunca pensei que veria isso de novo… — Ricardo falou — Ela deve estar chegando, vamos rápido
Ele tirou de uma das mochilas uma pequena figura, um pássaro de argila que havia modelado há poucos dias, e fechou suas mãos em volta dele. Após recitar algumas palavras de olhos fechados, ele pegou a pequena escultura e lançou-a para cima. Durante o lançamento ela começou a crescer até se tornar do tamanho de uma carruagem. Ricardo se aproximou dela e a tocou, seu toque fazendo a figura ganhar vida e bater suas asas iniciando o voo. O casal subiu em suas costas e eles começaram sua partida.
Enquanto se afastavam da cabana, Ricardo pôde sentir sua respiração diminuir e seu corpo se acalmar — “vai dar tudo certo” — ele pensou — “só precisamos ir embora e arranjar outro lugar”.
— Ah meu bem, onde você pensa que vai?
Repentinamente, vinhas vermelhas feitas de algo que parecia sangue apareceram em volta do pássaro de argila, agarrando-o e interrompendo seu voo. “Droga, fomos lentos” pensou Ricardo quando viu uma figura flutuando atrás deles. Uma mulher com longos cabelos vermelhos usando um vestido carmesim que descia até a altura dos tornozelos os observava com olhar perverso. Ela caminhou em pleno ar até parar em cima da imobilizada ave.
— Diana, há quanto tempo — falou Ricardo
— Vamos sem rodeios — a mulher falou encarando Fred com ódio — eu vim pegar o que é meu, e me refiro a você Ricardo.
— Ah, Diana, você sabe que as coisas não são assim. — Ricardo tremia levemente enquanto falava — você não pode ter uma pessoa.
— Meu amor, você não entende, não é? — o rosto dela se avermelhou de raiva quando ela brandiu — eu sou a bruxa da lua sangrenta, não há nada que eu não possa fazer!
— Bom, eu acho que você está enganada! — Fred disse antes de pegar a mão de Ricardo e pular do pássaro.
Em queda livre, o homem puxou de sua jaqueta um baralho de tarô e rezou para que viesse o que ele precisava. Fred puxou uma carta. Era “O Julgamento”. Com um agradecimento baixo, jogou-a para cima. Lá no ar, ela apenas se reduziu a pó. De repente, em meio ao carmesim do céu vermelho saíram luzes como que da salvação, dessas luzes saíram figuras aladas angelicais que foram ao encontro do casal e os carregaram até o chão. Simultaneamente, nasceram no pássaro figuras demoníacas que começaram a atacar a bruxa
— Vamos! É nossa chance — gritou Fred pegando a mão de seu amado — eles vão segurar ela!
Eles correram o mais rápido que podiam até estarem distantes o suficiente para que fosse seguro invocarem outro pássaro e partirem de vez. Eles se esconderam em uma pequena aldeia ao sul da vila dos Girassóis, uma aldeia protegida pela Guilda da Lua Azul — os inimigos da Torre Mágica da Lua de Sangue — onde a bruxa nunca poderia entrar, um lugar onde eles viveram sua paz.