Fausto do reino velho

O conto abaixo foi escrito para o Torneio das Plumas Reais realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em 2025. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Felps”


Já era possível ver ao horizonte as torres do castelo. A capital do reino, Modoco, erguia-se bravamente no fundo do cenário que Silva, o último dos graals, observava em seu acampamento improvisando. Atrás dele o sol sofria seu crepúsculo e a escuridão se expandia pela terra, fazendo-o perder a capital de vista, ele precisava de luz. Por sorte ele havia trazido lenha das florestas ao norte, seria complicado achar algo para usar de combustível no deserto que rodeava a metrópole. O silêncio da morte o envolvia enquanto posicionava a lenha e a acendia com uma faísca gerada por um movimento suave da sua mão. “A fumaça poderia atrair bandidos talvez…” Ele pensou, porém logo tirou isso da cabeça, não havia mais bandidos a serem atraídos, aquelas coisas fizeram questão de lidar com todos. Antes de dormir ele deu uma última olhada na direção onde deveria estar a capital, não visível pela escuridão — “Tem que ter alguém lá, eles não podem ter matado todos. Espero que vossa majestade esteja bem…”.

A cidade estava deserta. Estranhamente deserta, como se nunca houvesse tido ninguém lá. Silva caminhava pelas ruas em busca de ao menos um sinal de vida, não havia nada. “É como se eles tivessem se livrado até dos rastros dessa gente… Merda, tenho que chegar até o rei logo”, ele apertou o passo, correndo até a fortaleza.

O enorme Castelo de São Silvestre se erguia na sua frente. Com seu grande portão ornamentado com entalhes em ferro com formato de vinhas crescendo e suas torres de vigia levemente inclinadas para trás dando a impressão de ver tudo ao seu redor, ele representava o que havia de mais luxuoso no império Delomacro, e exatamente nesse portão se encontrava Silva. Logo que abriu as portas para a fortaleza ele pôde sentir uma aura de morte e horror que só poderia ser vinda de uma coisa: um deles estava ali. Entrando em alerta ele invocou sua espada com a mão direita e seguiu cauteloso pelos corredores luxuosos é fortemente ornamentos do castelo.

Conforme se aproximava dos aposentos reais, aquela presença só aumentava e aumentava, ela era muito maior que qualquer outra que ele já havia sentido, maior até mesmo que a daquele que havia matado os outros graals… Ele ainda se lembrava da máscara grega com face de tragédia que trazia a criatura encapuzada, ele havia simplesmente aparecido na base deles e matado a maioria deles na surpresa, apenas ele e Joana haviam sobrevivido e foi necessário o sacrifício dela para matá-lo. Após isso ele não viu mais um único ser humano, porém teve diversos encontros com essas criaturas mascaradas, nenhuma tão poderosa quanto a primeira, mas todas conseguiram facilmente eliminar uma tropa inteira do exército. “Não! Não posso ter medo agora”. Ele se acalmou logo na frente da porta do aposento real.

Silva abriu lentamente a porta que exibia em seu centro o nome do atual rei: Edgar I. Lá dentro estava ele, um ser de manto negro com capuz e máscara grega, porém aquela máscara não era normal… O rosto presente nela era o do rei.

— V-Vossa majestade? — Vociferou baixo o herói.

— Silva, então era você o sobrevivente que matou Clauddé? Surpreendente um ser humano ter sido capaz de matar ele!

— Vossa majestade, o que significa isso? Vossa aparência e o jeito que o Sr. fala… É como se estivesse por trás de tudo isso.

— Ah Silva — o rei falou, sua voz, antes acolhedora e doce, agora era fria e arrogante – você é mais esperto que isso rapaz, eu mesmo fiz questão disso em sua criação.

— Por quê? Por que o senhor faria isso?

— O poder Silva, o poder. Quando ele apareceu pela primeira vez eu o rejeitei, como fiz mais outras muitas vezes. Porém ele me mostrou que podia me dar algo muito acima de qualquer império, o mundo! Agora tudo pertence a mim, e só a mim, o poder que ele me deu é superior a tudo!

O rapaz apenas ficou calado, encarando com medo e abismo aquilo que um dia foi seu ídolo e inspiração.

— Silva, você sempre esteve comigo, você entende, não é? Venha pegue a minha mão, você tem um lugar no meu mundo filho — ele esticou a mão em direção ao herói.Silva não esboçou reação, apenas ficou parado, onde haveria de ficar eternamente. O rei riu vendo o corpo morto ainda em pé na sua frente “Assim acaba a humanidade, com seu último espécime morrendo de desgosto…”