Beatrice Em Minha Vida

O conto abaixo foi escrito para o torneio Baralho Narrativo realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em Novembro de 2025. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Dean”


Todos aguardam com inquietação meu próximo trabalho: o livro que finalmente dará um desfecho à personagem que me acompanhou por doze longos anos. A Dama da Verdade, Beatrice De Las Neves. Uma jornalista desajeitada, incapaz de lidar com interações sociais, mas movida por um senso de justiça quase obstinado, sempre pronta para levantar qualquer tapete e expor a sujeira escondida daquilo que chamam de sociedade.

Nunca fui requisitado para entrevistas. E, nas poucas vezes em que entrei no XYZ Nimble, no Photogram ou no Eyenote, jamais fizeram sequer uma pergunta sobre mim. Todos os focos, todas as curiosidades, sempre apontavam para a Beatrice. Não sou tolo o bastante para guardar rancor — isso só atrapalha e corrói na hora de escrever.

Ainda assim, toda vez que começo a dar vida às histórias da Beatrice, sinto um impulso infantil de arrancar qualquer traço de alegria ou conforto das narrativas, como uma vingança por ela ter tomado, pouco a pouco, tudo o que eu era desde o dia em que a criei. Mas basta eu trilhar uma única linha que conduza o tom para algo trágico ou mais sombrio, e os editores surgem diante de mim como cobradores impacientes atrás de um devedor. Todas as conversas vinham carregadas de vozes duras e diretas:

“Nem pense em mexer no que faz a personagem ser quem é. O público a idolatra, ama suas aventuras, é apaixonado por esse universozinho que você construiu. Então mantenha tudo como está. E não queira imaginar o que acontece se a próxima semana render alguns centavos a menos que a anterior, certo?”

Eu apenas concordava, contrariado. Às vezes, ainda tinha que aguentar tapinhas no ombro depois de praticamente ser ameaçado por não seguir a visão criativa… deles. E chamar aquilo de “visão criativa” chega a ser ofensivo. Só enxergam algo quando os atinge diretamente — e, no caso, é o bolso.

Além dos livros, vieram quadrinhos, adaptações para TV, filmes animados e, claro, bonecos e mochilas personalizadas. Às vezes, me pergunto como histórias sobre uma jornalista estabanada que investiga crimes e esquemas ocultos — muitas vezes acobertados pela mídia ou pelo governo — conseguem cativar crianças. Talvez seja culpa da série de TV. Não tive qualquer controle sobre ela. Na verdade, nunca assisti a um único episódio.

Normalmente, as broncas dos editores terminavam quando eles se afastavam para gerenciar o trabalho dos outros escritores — aqueles que, ao contrário de mim, não tinham uma sala individual cheia de recursos para manter a galinha dos ovos de ouro produzindo cada vez mais ganhos para eles.

Mas os ovos começaram a estragar. O último livro de contos vendeu duzentos reais a menos que o anterior. Talvez resultado do desgaste mental, da pressão constante da editora e dos leitores, somados ao ressentimento profundo que eu nutria por aquilo que escrevia. Com tudo isso misturado, não havia a menor chance de surgir um “Charles Dickens moderno”.

Eles cumpriram o que prometeram e apareceram na semana seguinte ao lançamento. E eu senti uma tranquilidade tão grande quanto inesperada. Esperava, com certeza absoluta, receber minha demissão. Uma libertação. Mas a proposta que trouxeram foi… surpreendente — até mesmo para eles.

Permitiram que eu escrevesse um último romance da Beatrice. Não mais um livro de contos, mas o Romance. E, para garantir, ofereceram-me liberdade criativa total sobre personagem e trama. Justificaram que, mesmo que as vendas fossem medíocres, ainda assim seria o encerramento definitivo. Insinuaram que, após a publicação, eu ganharia enfim minha carta de alforria. Tanto que me entregaram um passaporte para uma ilha isolada onde eu daria vida a essa história.

Era uma ilha pequena, coberta por vegetação, com um único farol. Mas não subestime: eles investiram bem nisso. Três andares — o primeiro para a entrada, o segundo com o banheiro e o terceiro sendo meu quarto, equipado com cama de casal, escrivaninha, guarda-roupa e uma janela ampla que revelava o mar. Mesmo daquela altura, o cheiro forte da maresia invadia o ambiente. A brisa soprava leve, quase como um assobio. E o som das ondas servia de trilha sonora para manter meu foco enquanto eu digitava no notebook.

Durante o mês que passei lá, fui apenas eu e a Beatrice.  Lembrei do que já tinha visto em anúncios de viagens e livros educativos que o isolamento ajuda o cérebro a colocar tudo em ordem. Embora também possa causar uma depressão silenciosa. Sobre isso? Eu jamais imaginaria me sentir tão cansado justamente por ter tempo livre para escrever. Houve dias em que só observei o mar, imóvel. Em outros, escrevi uma ou duas páginas e fui dormir. E existiram aqueles extremos, em que dei voltas na ilha umas vinte vezes antes de voltar ao romance, como uma rotina de exercício, já imaginou alguém fazer exercício para não enlouquecer? Pois é, o que eu não faço pelo trabalho. Pelo menos ganhei um bom físico nessa brincadeira.

Às vezes, era enquanto eu contemplava o mar pela janela do farol que surgiam as ideias para o livro. Era como um abrigo quando eu não sabia o que inserir na trama ou quando o bloqueio criativo me travava. Até minha memória parecia se reorganizar, trazendo à superfície os fatos que me levaram até ali. Então a pergunta clássica — aquela que todos já se fizeram — bateu forte em mim:

“Ah, se eu pudesse voltar no tempo…”

Se isso fosse possível, eu faria apenas um pedido: desejaria nunca ter escre— Não! Desejaria nunca ter lançado o conto que apresentou a brilhante Beatrice ao concurso para jovens autores e, depois, ao mundo. No começo, tudo foi maravilhoso. Quem nunca sonhou com fama? Ser reconhecido pelo próprio trabalho, ouvir elogios sinceros: “Que história incrível! Sua escrita é fluida!” Eu não era um prodígio, não tinha dom nenhum. Aquilo foi apenas sorte. Sim, pura sorte que meu conto tenha sido escolhido em meio a obras provavelmente muito mais promissoras do que eu imaginava.

E, como prêmio, ganhei uma personagem que, apesar de inexistente, tornou-se real o bastante para amaldiçoar minha vida. Céus…

Depois de mais um dia encarando o mar e sentindo o vento balançar meus cabelos escuros enquanto eu fumava, virei para a escrivaninha. O notebook estava aberto na última página do romance. Concluí o manuscrito em uma semana e fiquei três na ilha. Os anteriores levavam duas ou três só para fazer o rascunho, e mais alguns dias para revisar. Talvez fosse a experiência adquirida… ou meu total desinteresse em dar àquela história o cuidado que talvez merecesse.

Sinceramente? Eu não me importava. Só queria me libertar e empurrar aquele fardo para o próximo azarado.

Na revisão, acrescentei elementos que fariam qualquer fã arrancar os cabelos. Primeiro: matei a grande estrela ao final. Eu a detestava — e não é exagero —, mas não seria tão infantil ao ponto de eliminá-la de forma banal. Depois, deixei o mal vencer. Por cavar fundo demais, Beatrice acabaria encarando algo maior do que podia suportar: um esquema de corrupção colossal. Todos se voltariam contra ela. E, ao publicar sua matéria, homens poderosos invadiriam sua casa, assassinando-a e destruindo todas as provas. No dia seguinte, os moradores de Berry lamentariam sua morte… para logo depois enaltecer outra figura — justamente aquela que a matou.

Não é fantasia. O mundo funciona assim: imprevisível, impiedoso. E consegui transmitir isso em cada parágrafo. Ao terminar a revisão, sorri. Um sorriso que não dava há anos. O mesmo sorriso sonhador de doze anos atrás.

Enviei o texto bruto para a editora, que cuidou da capa, diagramação e tudo mais.

Dois dias antes da publicação oficial, o livro já estava nas lojas físicas e digitais. Uma semana passou num piscar de olhos. E os resultados chegaram rápido aos chefes. Eles mal podiam acreditar… O romance foi um estrondo absoluto, superando os anteriores e enterrando qualquer expectativa pessimista. Os editores ficaram desnorteados, talvez esperando que, com tudo contra mim e a desvalorização que eu sofria, o livro fosse um fiasco total.

Seus olhos brilhavam quando me trouxeram a papelada. Bastou uma leitura rápida para perceber: não era minha demissão — era um contrato novo. — Recusei com desprezo. Eles choramingaram, imploraram para que eu continuasse, mesmo depois de eu ter encerrado a personagem de forma definitiva, justamente para não haver chances de retorno.

Apelando para o que ainda restava de justiça, entregaram-me, a contragosto, o verdadeiro documento de desligamento. Assinei, saboreando cada traço. Com o som da caneta tocando o papel, juntei minhas coisas e saí do prédio. Passei a mão por alguns cantos conhecidos, me despedi de colegas. É incrível como a nostalgia sempre vem nesses momentos.

Como escrevi no romance, a vida é assim: cheia de reviravoltas.

Mas apenas um mês depois, como um espírito vingativo, Beatrice voltou a assombrar minha vida. Mesmo com o dinheiro acumulado ao longo dos anos, eu duraria só mais um ano sem outro emprego. Cada entrevista virou aprendizado, um passo para evoluir. Afinal, dediquei minha existência inteira à escrita… a uma única personagem. E enfim desvinculei dela. Ainda vejo seus produtos em bazares e shoppings da cidade, mas a liberdade conquistada é deliciosa, mesmo que agora eu precise reaprender como é lutar para se sustentar, saindo de uma vida onde os conflitos estavam ocultos sob o brilho de uma personagem famosa.