Amêndoas
O conto abaixo foi escrito para o Torneio das Plumas Reais realizado pelos mestres da Guilda Esmeralda em 2025. O texto não passou por edição ou revisão e está publicado da forma que foi enviado por seu autor, que se identificou como “Felps”
O cheiro de amêndoas amargas continuava impregnado na casa mesmo após 4 dias da limpeza. Morte por asfixia, pelo odor certamente cianeto de hidrogênio, provavelmente suicídio. Não sei por que meu Tio Paulo faria isso, mas, como meu dever de detetive e sobrinho, eu iria descobrir. A sala de estar, onde o corpo foi encontrado, estava do mesmo jeito que sempre foi, o papel de parede florido e desgastado e o chão de madeira rangente davam um aspecto de abandono à casa e contrastavam com os móveis recém trocados que o tio ganhara de uma prima.
— Detetive, a equipe está se retirando — Me disse Amaro, um dos investigadores — normalmente você deveria vir junto, mas… Eu imagino que é um caso delicado para você, então, se quiser ficar aqui e ver se consegue algo, pode ficar.
— Obrigado Amaro, vou avisar se achar qualquer coisa que indique a causa — respondi agradecido, mas ainda afetado por tudo isso.
Quando a equipe se retirou da casa e eu me vi sozinho lá, não pude evitar chorar envolto em memórias. Tio Paulo era um homem bom, irmão de minha mãe, e, por um tempo, o mais próximo de um pai que eu tive. Ele sempre estava nos momentos que eu e minha mãe mais precisávamos. Sentado no sofá encarando a marcação do lugar onde o corpo foi encontrado, e já retirado, percebo como passou o tempo. O sol já não entrava mais pela janela, a escuridão consumia a velha sala de estar dando um aspecto assombroso à cena do crime. “É hora de dar uma olhada no quarto” penso me levantando do sofá e indo em direção ao corredor.
O corredor era longo e com 6 portas, 3 de cada lado, dessas 2 eram banheiros e 1 um cômodo destinado ao guarda-roupa, resultando em 3 quartos. Não me preocupei de acender a luz enquanto passava pela longa passagem e entrava na primeira porta à esquerda, era o quarto de Tio Paulo. Acendi a luz que ofuscou minha visão e tive um vislumbre o quarto, nada parecia de errado nele que possuía um piso e papel de parede semelhantes à sala de estar, porém bem menos desgastados e velhos, dando uma impressão de coisa nova. Tudo estava bem arrumado apesar de nós já termos vasculhado cada canto dele. sentei-me na cama e quase caí com o balanço inesperado do colchão — “Droga de cama d’água, ele realmente nunca superou essas velhas modas” — reclamei baixo enquanto me estabilizava. Escaneei o cômodo com meus olhos e minha vista recaiu estranhamente sobre a velha escrivaninha de madeira no canto isolado dele, uma caixa estava em cima dela, isso não estava lá antes.
Me aproximei cauteloso da escrivaninha e aproximei meu ouvido da caixa. Nada. Um pouco mais calmo abri ela, havia um pequeno caderno de capa de couro e folhas amarelas, em baixo dele havia um desenho, muito bem feito, de uma silhueta em um quarto escuro, como se fosse uma sombra na escuridão. Abri o caderno, era a letra de Tio Paulo. Folheei as primeiras páginas tentando entender resumidamente o que ele falava. Parecia uma espécie de diário, no começo ele só comentava o que acontecia normalmente. Porém, chegando mais para a metade coisas estranhas começam a acontecer com o Tio. Pulei para a última página, quem sabe poderia haver algo sobre a razão de sua morte:
“Eu vi, eu sei o que eu vi. Aquela coisa, uma silhueta, uma sombra no canto da penumbra, eu me lembro com clareza o suficiente para desenha-la, meu Deus…” A última palavra parecia borrada e havia algumas gotas de sangue na página — “Como não achamos isso antes?” — Me perguntei antes de colocar o caderno no bolso do sobretudo e me virar para sair do quarto. Gelei. Na escuridão do corredor, de frente par a porta, lá estava a coisa, uma sombra na escuridão. Ela sumiu, as luzes apagaram. A
penumbra consumiu o quarto, não era possível ver nem um palmo na minha frente. — “Que merda foi essa?” — Indaguei a mim mesmo antes de puxar a lanterna e iluminar o caminho à minha frente e sair do quarto. Hesitei antes de realmente adentrar o corredor, aquela coisa estava lá, nada a impedia de continuar pairando pela escura passagem.
— Você deve ser o Douglas não é? — Falou uma voz risonha, masculina mas aguda como a de um palhaço — Paulo já falou muito de você…
A voz vinha de trás de mim. Pensei muito antes de me virar, e quando o fiz, lá estava ele. Era diferente da primeira sombra, essa parecia realmente um palhaço, era alta, possuía o característico cabelo de palhaço: a careca em cima e as laterais cheias.
— Você não é muito de falar? Que peninha… Pensei que quisesse saber o que houve com seu tio… — um tom de perversidade apareceu na voz, mas eu fingi não notar, eu tinha que saber o que houve.
— Espera, eu quero saber o que houve — Eu disse tentando parecer resoluto e escondendo meu medo
— Ótimo! Venha aqui perto para os outros não nos ouvirem — a perversidade na voz aumentava
Eu me aproximei, invés de sentir o calor da proximidade com o palhaço, eu sentia frio, como se ele roubasse todo o calor do lugar para si, quando estava bem próximo dele, olhei pro lado, outra sombra estava lá, uma bem baixa, parecia ter cabelos longos que passavam do ombro. Eu gelei com a visão dela, ela tinha olhos que me encaravam enquanto chegava perto do palhaço, ela disse uma única frase:
— Você não devia ter confiado nele — Mal consegui ouvir antes do palhaço falar
— Sabe o que aconteceu com seu tio? — Uma boca apareceu no meio do que seria o rosto na sombra esboçando um sorriso maléfico. Ele aproximou o rosto do meu ouvido — Ele chegou pertinho igual a você.
No outro dia, a equipe se deparou com um cheiro mais forte de amêndoas amargas.